Apocalyptica & Nina Hagen "Seemann"
27.11.09
25.11.09
Até agora, tudo bem
Instigado pela chuva, copos de vinho branco ou outra coisa qualquer, sigo o rumo desse caminho, o da canção, essa que me vestirá as cinzas. E aparentando fatalidades, mimando-me de tabaco e minutos só meus, retorno a esse sofá no canto da sala do piano de onde a rua me parece minha, reflectindo neblinas litorais nos candeeiros amarelados de ontem. Sou eu, o original. Aquele dos Verões compridos, dos Outonos prematuros antes dos degraus da escola. Sou o mesmo. Não mudei, nem me reflecti em todos estes anos. Amei, confesso. Subjuguei-me a prazeres proibidos, esses que não se contam ao melhor amigo. E amigos, sobram-me os que não são. Nem nunca foram. Varro-os para debaixo do tapete, o sírio, o que não piso. Olho em volta e sorrio. Resta-me Mr. Jones. Nunca me falhou.
Cúria
Pego-te na mão, sigo o teu caminho de volta, olho em torno de ti, muito em ti, como se fizesses parte desse imenso, um lugar ermo onde estamos e nos revelamos calados.
Encontro de amigos desconhecidos
Alberto, ouve-me ao menos um momento. O tempo de um café tomado à pressa. O minuto e vinte que te demora o passo à esquina. O olhar longo desse escaparate, que te esvazia o talento. A ponte, o vão de escada e a cadeira, onde serás tu e outros. Alberto, pára um instante, um que não te faça falta. Esse aí, que levas em bandoleira. O tempo de um projéctil te visar o centro. Alberto, olha-me nos olhos e vê aqui onde estou. Olha-me e diz-me, sem indecisão. Diz-me se aqui me vês, se me encontras. Ou não.
Retrato a restaurar
Revejo e prevejo as ondulações analógicas, umas em forma de camélias outras apenas porque sim. E invejo. E detesto. E atiro-me de cara a esse canteiro de restos de rosas, urrando cada arranhão como se adoça uma ferida, pérfida carícia de donzela suspirando por cuidado, emoldurada pela mesma janela que outrora encaixilhou alfaiates e matronas, prussianos de alguma safra longínqua de todos os dias. E todos os dias adormeço e retardo o acordar. E todas as noites demoro o meu deitar. E no prostíbulo, nesse longo corredor de máscaras, avivo as brasas com a mesma canção. Uma de embalar, onde me engano em verso.
24.11.09
O outro lado da calma
Na curvatura da calma, existem pinceladas de cores matinais, um traço pastel por cada inspirar de um vento frio colorindo o sangue. Os sentidos passam a contar centenas, um por cada cintilo, um em cada fio de espuma dessa maré que escolhe morrer junto aos pés, juntos de simetria que um vago sol não sabe romper. Na calma, esconde-se o lado oculto de quase tudo. Quase. Não sei o caminho para o lado oculto da calma.
20.11.09
19.11.09
Dogma
Pretendo chegar tarde e ver-te assim, aconchegada pelo abandono, torneada ao longo das horas de espera, vazia e fugitiva. Prefiro-te ausente, longe dos meus dedos e das serenatas murmuradas, afastada dos meus olhos e do meu sopro. Desejo-te pela distância, por esse último comboio que nunca se apanha. E anseio-te nessa demora ímpia onde crente me penitencio nesse altar feito de ti.
18.11.09
Barbaridades
Redondeio a água com limão, cruelmente como um quente desfeito em morno, onde os meus olhos revelam o sustenido dos dedos procurando um tocar de ceptro. Empresto-me ao ouvido e ao fustigar da palidez por um dia de sol, onde apenas o fim de tarde vale. Desumano o fim de tarde, nessa correria amansada por despertar o matutino. Desumano eu... no citrino.
17.11.09
História dentro de outra história
Suspenso entre a demora e o acelerador apressado na chegada a qualquer lado, tortura-se ao redor da sua impaciência. Sente-se denso, desencorajado, vítima da sua tentativa de encontro em outro roteiro. Imagina de cor todos os paradores de estrada, os laivos de medieval onde a noite lhe empareda o desejo. Um desejo medíocre que nem o chocolate adoça. Pretende-se cavalheiro. O cabelo e o pensamento em desalinho desmentem-lhe a pretensão. O cérebro aprendeu a confundi-lo com truques e gestos de engano propositado, arrancando-lhe das mãos as cartas por muitos ases e damas. Sem querer, curva-se perante reis e detentores da verdade, mesmo que por apenas dois minutos. Perto de algum dos seus limites, pontapeia o chão e alguma parede branca, nunca uma porta. Sofre como ele só... e como todos. Afinal, já conheceu tantos e tantas. E com eles e elas, sonhou os segundos que o pouco dinheiro soube pagar.
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